Tratamento Cirurgico da Displasia da Anca

Neste artigo abordamos alguns aspectos de 5 técnicas cirúrgicas usadas para o tratamento da displasia da anca.

Neste momento estas são as técnicas que nos surgem como as mais relevantes no tratamento desta doença.

Primeiro vamos demonstrar o desequilíbrio em que está a articulação na situação de displasia. A má conformação da articulação causa o movimento que vemos na imagem. 

Este movimento (translação lateral) piora a má conformação porque o acetábulo em crescimento precisa da cabeça femoral contida no seu centro para lhe servir de “molde”. Este movimento é anormal para a articulação e causa um desgaste acelerado da cartilagem por excesso de atrito. Ele exige um esforço extra de alguns músculos na tentativa de manter a cabeça femoral contida no centro do acetábulo. Estes músculos entram em fadiga e a situação torna-se insustentável. A cápsula articular é esticada repetidamente e sofre lacerações; o aumento de fluido articular por inflamação e a deformação do labrum causam a perda do efeito “ventosa” que o acetábulo exerce na “esfera” que é a cabeça femoral aquando de forças distractivas. Cada vez mais a cabeça “foge” de dentro do acetábulo e pode chegar mesmo a luxar (desencaixar totalmente) nos casos mais graves.




Primeiro vamos abordar 3 técnicas que aumentam a cobertura da cabeça femoral, melhorando a biomecânica da articulação. Uma das ideias chave a reter em relação a estas técnicas é que: Quanto mais cedo fizermos a cirurgia , melhores são os resultados . Convém lembrar que quando se fala de crescimento e desenvolvimento os cães têm o relógio muito acelerado em relação aos humanos. Vejamos: 2 meses de gestação contra 9 meses nos humanos; a placa de crescimento tri-radiada do acetábulo encerra aos 5-6 meses de idade contra 20-25 anos nos humanos; o crescimento do esqueleto pára entre os 12 a 18 meses contra os 17 a 20 anos dos humanos. É isto que devemos ter em mente quando tomamos decisões no tratamento desta doença. Cada semana que passa faz diferença. 

Osteotomia Pélvica Tripla

Nesta técnica o acetábulo é solto da sua posição anatómica e rodado de forma a cobrir a cabeça femoral . Esta nova posição do acetábulo é mantida por intermédio de placa e parafusos. Isto vai causar uma melhor distribuição das forças que passam pela articulação e reequilibrar as forças musculares, parando as referidas e maléficas translações laterais e as suas consequências.

Se o animal ainda tem algum desenvolvimento pela frente (por exemplo se tiver 5 meses de idade) o resto do crescimento do acetábulo será melhor orientado porque o “molde” (cabeça femoral) voltou ao centro do acetábulo.

Os resultados com esta técnica têm sido consistentes na melhoria do desempenho da articulação com displasia apesar de que não é muitas vezes possível parar a progressão da doença articular degenerativa (artrose). Nem todos os animais são candidatos a esta cirurgia. A avaliação pré-cirúrgica irá determinar se o acetábulo terá as características necessárias para que a sua rotação melhore a contenção da cabeça femoral. Após a cirurgia é muito importante respeitar um período de 6-8 semanas de repouso do animal, com total proibição de saltos e corrida. O stress excessivo sobre os materiais de fixação poderá afectar em muito o resultado da cirurgia.

Plastia do Bordo Acetabular Dorsal

Nesta técnica é colocado um enxerto ósseo sobre a cápsula articular e criadas condições para que este enxerto se estabeleça e cresça como uma extensão do acetábulo original. Assim aumentamos a superfície sobre a qual podem ser colocadas as forças do apoio, visto que a cápsula articular por debaixo do enxerto ósseo se vai transformar em fibrocartilagem que é a melhor aproximação que o organismo consegue produzir á cartilagem hialina. Consoante a fase e a gravidade da doença este enxerto pode inclusive “enviar” a cabeça femoral de volta para o centro do acetábulo e, se o animal ainda tem algum desenvolvimento pela frente o resto do crescimento do acetábulo será melhor orientado. Em medicina humana, a técnica análoga (“Slotted Acetabular Augmentation”) tem um importante historial de aplicação. Em medicina veterinária esta técnica tem um historial mais curto que a osteotomia pélvica tripla, logo, existem menos estudos disponíveis cujos resultados nos indiquem os seus limites de aplicação. A nossa experiência com esta técnica, na altura em que contamos mais de 4 centenas de ancas operadas, tem deixado a equipa de veterinários, o dono e o seu animal bastante satisfeitos com os resultados. Os resultados têm sido consistentes na melhoria do desempenho da articulação com displasia apesar de que não é possível parar completamente  a progressão da doença articular degenerativa (artrose), principalmente se já estiver instalada e avançada. Só alterações muito graves da articulação excluirão os animais desta solução cirúrgica, em contraste com os mais apertados parâmetros de selecção para a solução que é a osteotomia pélvica tripla. Após a cirurgia é muito importante respeitar um período de 6-8 semanas de repouso do animal, com total proibição de saltos e corrida. O stress excessivo colocado sobre o enxerto poderia dar ao aumento acetabular uma configuração menos boa.

Sinfiodese Púbica Juvenil

Esta técnica surgiu da seguinte constatação: - se pararmos o crescimento da pélvis na placa de crescimento da sínfise púbica causamos uma rotação ao nível do acetábulo (semelhante á osteotomia pélvica tripla) que aumenta a contenção da cabeça femural. A técnica cirúrgica consiste em fazer a cauterização da placa de crescimento ao nível da sínfise púbica. O seu historial de aplicação é ainda curto. Os resultados reportados até hoje são encorajadores. A técnica é ineficaz a partir dos 5 meses de idade , o que obriga a uma detecção precoce da doença. 

Prótese total da anca

É uma técnica cuja percentagem de bons resultados nos estudos efectuados pode atingir os 90% no seio de uma equipa com experiência na sua aplicação.A prótese com maior historial de aplicação na espécie canina é a prótese cimentada, na qual existe um cimento entre os implantes e o osso. Tipicamente estas próteses têm o seu ideal de aplicabilidade a partir dos 4-5 anos do cão. Antes destas idades há questões importantes como a menor consistência do osso jovem e com o período de vida útil da prótese. Têm-se procurado desenvolver próteses que permitam uma melhor ancoragem no osso, com maior durabilidade e que se apliquem em pacientes cada vez mais jovens. Neste sentido surgiram nos últimos anos as próteses não cimentadas à semelhança da medicina humana. . 
Os estudos são no entanto ainda insuficientes para sabermos qual o prognóstico a médio e longo prazo com estas soluções.

Resseção da cabeça e do colo femural

Esta técnica consiste em remover a cabeça e o colo femorais. A resposta do organismo é a densificação das estruturas remanescentes, nomeadamente da cápsula articular, ocorrendo a formação do que tem sido apelidado de “falsa articulação”. As razões pelas quais esta cirurgia é considerada um último recurso são a imprevisibilidade da recuperação funcional e do tempo de recuperação. Isto não significa que não se obtenham frequentemente resultados satisfatórios.

Apesar de que a maioria dos animais tolera bem esta técnica e vê os seus sintomas diminuídos, uma proporção significativa manterá algum tipo de limitação no uso do membro operado. Quanto mais pesado o animal, maior o risco de sequelas limitativas. O tempo que decorre desde a cirurgia até que o animal comece a usar o membro operado com maior confiança é variável e pode ir até períodos tão longos como 7-12 meses em alguns estudos, embora isto não ocorra com muita frequência.Apesar de tudo permanece como uma solução de alívio da dor em situações mais graves e em que não se vislumbra outro tratamento. No nosso centro, e visto que a literatura especializada refere que uma das principais causas de insucesso da técnica seria o contacto osso com osso após a cirurgia, frequentemente efectuamos ressecção parcial acetabular para minimizar os riscos dessa possível fonte de desconforto.





 

 

 

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